Superman (2025) - Resenha com Spoilers
O problemático fim do DCEU deixou cicatrizes, especialmente na forma como tratou seu Homem de Aço. A saída de Henry Cavill — que havia voltado brevemente como Superman no final de Adão Negro, apenas para ser descartado pouco tempo depois — deixou os fãs desorientados, com uma sensação amarga de promessa quebrada e legado desperdiçado.
Ainda assim, enquanto o Superman parecia ausente dos cinemas, ele reencontrava seu caminho na televisão. Séries como Superman & Lois e As Minhas Aventuras com o Superman foram fundamentais para manter viva a imagem do herói nos corações do público. Ambas conseguiram apresentar versões diferentes, mas igualmente eficazes, do personagem: uma mais madura, centrada na família, e outra jovial, divertida e emocionalmente acessível. Essas produções reacenderam o fascínio pela figura de Clark Kent e impediram que o Superman caísse no esquecimento total.
Mas ainda faltava algo. Faltava um evento, uma obra de impacto cultural que resgatasse o Superman como ícone cinematográfico — e que reafirmasse sua visão otimista e esperançosa em escala global.
E é aí que entra Superman (2025).
James Gunn entrega um filme que não só reintroduzir o herói ao público como também ousa fazer isso com energia, identidade e, acima de tudo, coração. Talvez estejamos testemunhando o verdadeiro renascimento do Último Filho de Krypton nas telonas.
James Gunn trouxe de volta o Homem de Aço aos cinemas com uma abordagem ousada, enérgica e, acima de tudo, cheia de personalidade. E embora Superman não seja um filme perfeito, ele acerta o tom em algo que muitos esquecem: fazer a gente se importar.
James Gunn e seu roteiro conseguiram construir um Clark Kent profundamente humano — alguém que erra, que se irrita, que não carrega o fardo da perfeição, mas ainda assim tenta fazer o certo. Essa abordagem torna o personagem não só mais acessível, como também mais real e emocionalmente ressonante. O monólogo final entre ele e Lex Luthor é um exemplo brilhante disso: um diálogo orgânico e revelador que nos permite vislumbrar não só as motivações de Lex, mas também a maturidade silenciosa de um Clark que entende a dor e o medo por trás do ódio. E a escolha de manter Jonathan e Martha Kent vivos foi absolutamente acertada. Admito que sou suspeito para falar — sou cria da Era John Byrne nos quadrinhos —, mas acredito que o Superman ganha muito mais quando essas duas figuras estão por perto para orientar sua bússola moral. A cena entre Clark e seu pai em Smallville, discutindo destino e a ideia de "fazer o certo", me tocou profundamente. Essas conversas paternas sempre mexem comigo nas versões do Superman — e aqui, não poderia ser diferente.
Mas nem tudo é voo livre sob o sol amarelo. A primeira grande bomba vem da mitologia kryptoniana. Os Kryptonianos como figuras autoritárias? Até aí, tudo bem. Mas a ideia de que Jor-El e Lara enviaram Kal-El à Terra para ser um ditador... essa me deixa dividido. É claro que a desconstrução de figuras paternas mitológicas incorruptíveis dos gibis— como foi feito com os Wayne sendo alegadamente corruptos em The Batman — sempre vai gerar debate. É um risco narrativo. E, honestamente, espero que Gunn saiba até onde pode ir com isso. Pode render algo grande, mas também pode sair pela culatra. Vamos cruzar os dedos pela primeira opção.
Falando em legado, me pegou o fato da Gangue da Justiça ser apresentada como a primeira grande equipe heroica do mundo. Isso me soa estranho — e, sinceramente, espero que já exista uma Sociedade da Justiça neste universo, ainda que em segundo plano. Isso justificaria o próprio Hall da Justiça e até o nome escolhido por Guy Gardner como um tributo aos heróis originais. Porque, vamos combinar, “Gangue da Justiça” soa como algo que só funcionaria se já houvesse um legado a ser subvertido.
Obs: Acabei de voltar da minha segunda sessão do filme, e desta vez consegui notar um grande easter egg no Hall da Justiça. No mural interno do prédio, há uma pintura com vários heróis da Sociedade da Justiça. Então é isso... minha crítica original foi, na verdade, corrigida pelo próprio filme.
Dentre as surpresas positivas, a nova Supergirl é um destaque. Eu estou genuinamente empolgado pra ver mais dela. Só achei o diálogo com o robô Gary um pouco expositivo demais ("ela se embebeda em planetas com sol vermelho", sério?). Às vezes, menos é mais. Gunn geralmente sabe disso — mas aqui escorregou.
E talvez esse seja o maior problema do filme: ele tem tanta coisa boa que não dá tempo de curtir tudo direito. A relação de Clark e Lois é linda e cheia de química. Os Kents são puro coração do filme e me tiraram algumas lágrimas enquanto eu via. A equipe do Planeta Diário está afiada e com momentos bem legais (Especialmente a hilária — embora levemente problemática devido a um viés misógino — subtrama envolvendo Jimmy Olsen). E a Gangue da Justiça... bem, são carismáticos. Mas falta tempo. Faltou espaço. A narrativa precisava respirar mais para que essas conexões brilhassem de verdade.
E falando em coisas que surgem do nada: O QUE DIABOS É O MR. HANDSOME?!? Eu não sei se ele é um marciano branco, uma piada interna ou uma criatura vinda direto dos pesadelos do Gunn — mas ele definitivamente marcou presença como esse resquício de bizarrice do Gunn.
Bom, já que tocamos no tópico de vilões. Vamos falar sobre talvez minha opinião mais polêmica sobre o filme... Lex Luthor.
Desde o início, tive algumas implicâncias bobas — como o fato da empresa se chamar LuthorCorp em vez de LexCorp, entre outras pequenas escolhas que me incomodaram. Mas reconheço que isso vem do carinho e da importância que esse personagem tem pra mim.
Mas agora que vi o filme posso afirmar que: Estou dividido.
Apesar de um texto muito bem escrito e momentos magistrais de atuação, eu ainda não sei ao certo como me sinto em relação ao approach que James Gunn escolheu para este Lex Luthor.
O problema, acredito, está na forma como Gunn opta por apresentar seus personagens. Caímos diretamente em uma Metrópolis já consolidada — e, por extensão, em um universo já em movimento. Superman já é um herói público estabelecido, a Gangue da Justiça já opera, e Luthor, por sua vez, já é uma figura conhecida, com histórico, poder e influência.
Por um lado, isso é excelente. Sinceramente, ninguém aguenta mais a redundância narrativa de recontar a origem do Superman pela milionésima vez (e sim, graças a Rao, não precisamos assistir Krypton explodindo de novo). A economia narrativa dá fôlego ao ritmo do filme e respeita a inteligência do público.
Por outro lado... essa abordagem cobra um preço — e o personagem mais afetado por isso é justamente Lex Luthor.
Como leitor de quadrinhos, eu sei quem é aquele homem. Reconheço as inspirações que Gunn está evocando. Entendo os traços do megalomaníaco que se vê como salvador da humanidade. O orgulho ferido. A obsessão em derrubar o ícone que desafia sua visão de mundo. Lex é um vilão complexo.
Mas… e se eu não fosse esse leitor?
Se eu assistisse esse filme sem carregar esse histórico pessoal, talvez eu enxergasse um Luthor menos tridimensional. Um homem mais próximo de um bebê mimado, tomado por inseguranças e ataques de fúria, do que de uma verdadeira ameaça filosófica ao ideal que Superman representa. Ele grita, esperneia, joga sua frustração no mundo como um adolescente privilegiado que perdeu o controle — e não como um ser com ego ferido porém real vocação e habilidades de liderança.
E isso se agrava com o fato de que a atmosfera de Luthor no filme, em vários momentos, remete demais ao vilão do Guardiões da Galáxia Vol. 3 — aquele mesmo tom de fúria explosiva, surtos verbais e performance intensa que já vimos recentemente nas mãos de Gunn. É compreensível que estilos se repitam, mas aqui, a repetição tira um pouco da singularidade que Lex deveria ter.
Isso dito, vale destacar o que funciona — e funciona muito. Os diálogos são afiados. Algumas falas de Luthor cravam como navalha. E Nicholas Hoult entrega uma performance dedicada, intensa, cheia de camadas escondidas que, com o tempo, prometem amadurecer ainda mais. Hoult definitivamente entendeu quem é Lex Luthor — agora só falta o universo à sua volta dar espaço para ele respirar.
Como primeiro passo, está muito bem encaminhado. Mas como peça isolada, esse Luthor talvez precise de mais tempo e mais foco para deixar de ser apenas uma sombra promissora e se tornar, de fato, o arqui-inimigo digno do Superman que o filme nos apresentou.
Ainda assim, é impossível negar o potencial que esse Luthor carrega. Há ali uma base sólida que, se bem explorada, pode render momentos memoráveis nas próximas produções do DCU. Tudo depende de como o personagem será utilizado daqui pra frente — se será apenas um antagonista recorrente ou se vai, de fato, assumir o papel central que sua rivalidade com Superman exige. O palco está montado, falta apenas a grande peça.
E quando se trata de expansão de universo, esse filme deixa sementes discretas no solo. As participações especiais foram bem dosadas. O cameo do Pacificador arrancou boas risadas do cinema, enquanto Maxwell Lord teve uma aparição mais sutil e inteligente — plantando sementes pro futuro.
Aliás, agosto está logo aí, e mal posso esperar pra ver o que o Pacificador vai aprontar. Se esse universo funcionar, é nessa construção interligada e gradual que ele vai florescer.
Outro elemento que merece destaque é a atmosfera geral do filme — e devo dizer, é uma das escolhas mais acertadas de James Gunn. A estética e o tom abraçam de vez a ficção científica da Era de Prata, com toda a sua exuberância criativa. A presença do Krypto já denuncia isso de imediato, mas não para por aí: monstros gigantes, universos de bolso, rios de anti-prótons, nano-robôs, macacos raivosos infectando redes sociais com ódio e até bebês meta-humanos — tudo isso está lá. E o mais impressionante é como nada disso parece deslocado. Gunn tem um talento especial para inserir essas maluquices com naturalidade, colocando alma, humanidade e emoção até nos elementos mais desconexos dos quadrinhos. É impossível não lembrar dos trabalhos de Grant Morrison com o personagem, principalmente quando ele escreveu:
“No fim, eu vi o Superman não como um super-herói ou mesmo um personagem de ficção científica, mas como uma história do Homem Comum. Todos nós somos Superman em nossas próprias aventuras. Temos nossas próprias Fortalezas da Solidão para onde nos retiramos, com nossas próprias coleções especiais de coisas valiosas, nossos próprios super-animais de estimação, nossas próprias "Cidades de Garrafas" que nos sentimos culpados por negligenciar. Temos nossos próprios pares e rivais e emaranhados emocionais ou morais bizarros para lidar.
Senti que realmente havia compreendido o conceito quando o vi como o Homem Comum, ou melhor, como o eu-sonho do Homem Comum. Aquele "S" é o emblema radiante da divindade que revelamos quando tiramos nossas camisas apertadas, nossas máscaras sociais, nossas neuroses, nossos eus construídos e nos tornamos quem realmente somos.“
Esse espírito atravessa o filme. E mais do que apenas resgatar a iconografia da Era de Prata — com suas cores, brilhos e maravilhas atômicas — Superman (2025) também mergulha nos fundamentos políticos e sociais que deram origem ao personagem na Era de Ouro. Não é só sobre nostalgia estética, mas sobre reconectar o Superman com suas raízes ideológicas. A trama envolvendo Lex Luthor, Boravia e Jarhanpur é uma releitura modernizada de sua primeira aparição em Action Comics #23, onde ele instiga uma guerra entre duas nações (no material original Galônia e Toran) — aqui reinterpretadas como uma metáfora nada sutil para os conflitos ao redor de Israel e suas disputas por influência global. E quando o Superman se joga nesse pano de fundo político, eu não consegui conter um sorriso.
Porque sim, o Último Filho de Krypton é — e sempre foi — um herói socialista. Um defensor dos oprimidos. Um símbolo de resistência a governos autoritários, corporações gananciosas e desigualdades gritantes. É reconfortante ver que, nas mãos de Gunn, esse aspecto essencial da sua mitologia não foi esquecido, mas celebrado.
Superman (2025) é um filme fechado, divertido, direto ao ponto — mas que às vezes escorrega em diálogos ou na falta de foco. O ponto forte de Gunn continua sendo o equilíbrio entre emoção genuína e humor bem colocado. E, como sempre, o coração do filme está em seus personagens.
Fico genuinamente feliz em ver que James Gunn cumpriu o que prometeu: priorizar boas histórias acima de tudo. O filme não parece estar desesperado para montar um quebra-cabeça gigante ou plantar mil conexões por minuto — e isso, hoje em dia, já é revolucionário. O filme funciona por si só, tem identidade própria e não depende de uma teia interligada para justificar sua existência.
A saturação que vemos no gênero de super-heróis, em grande parte, vem dessa obrigação que os estúdios criaram de acompanhar absolutamente tudo que sai no cinema para "entender o próximo capítulo". E quando o foco sai da história e passa a ser apenas na engrenagem de um universo maior, a qualidade sofre. Os filmes se tornam pontes — não destinos.
Há muitos elementos que não consegui abordar com a devida profundidade — como os membros da Gangue da Justiça, a participação carismática e pontual do Metamorfo, a Engenheira e todo o pano de fundo envolvendo megacorporações explorando meta-humanos. Espero ter a oportunidade de desenvolver melhor esses temas em outras postagens aqui no blog.
Mas o principal ponto que estou elaborando no momento é a análise política envolvendo Boravia e a possível analogia com o Estado de Israel. É um texto que está exigindo bastante pesquisa e cuidado, então ainda não sei quando ficará pronto — mas podem ter certeza de que ele vai sair.
Espero que o novo DCU mantenha esse ritmo mais ameno, mais despretensioso. Nem toda história precisa levar a um megaevento cósmico. Às vezes, só precisamos de um herói com um cachorro voador, tentando fazer a coisa certa em um mundo complicado.
E Superman (2025) é exatamente isso. Um recomeço digno, sincero e cheio de coração.
Ah, e Krypto… Eu te amo. É só isso mesmo.
E antes de encerrar: se o Clone do Superman não voltar como Bizarro num futuro próximo, eu vou pessoalmente bater na porta do James Gunn.
❤️
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