Superman 2025 e o Resgate do Viés Socialista.

 Muito se fala sobre a inspiração estética e conceitual da Era de Prata dos quadrinhos no novo filme Superman (2025) de James Gunn — e, de fato, esse é o elemento mais facilmente perceptível da produção. Desde a presença de Krypto, passando por robôs voadores, monstros colossais e universos de bolsos, a obra mergulha de cabeça em um tom lúdico e exagerado, cheio de ficção científica e ousadia visual.

Mas existe outro viés, mais profundo e menos comentado, que também está presente — e que merece ser observado com atenção: o viés ideológico e sociológico de fundo socialista que permeava as primeiras aparições do Superman nas páginas da Action Comics, na virada da década de 1930 para 40.

O Superman da Era de Ouro: um campeão do povo

Joe Shuster e Jerry Siegel não eram executivos engravatados tentando vender um produto para massas. Eram filhos de imigrantes judeus, vivendo a dura realidade da Grande Depressão americana. Dois jovens franzinos, marginalizados, apaixonados por ficção científica e com a sensação de que o mundo não lhes oferecia espaço ou voz.

A criação do Superman, portanto, não foi uma construção mitológica conservadora sobre moralidade universal — mas sim um grito desesperado por justiça social. Eles precisavam criar um herói que defendesse os fracos, enfrentasse os poderosos e não temesse confrontar estruturas corruptas. E foi exatamente isso que fizeram.

Na sua primeira aparição, Action Comics #1 (1938), Superman: Derruba um político corrupto; Salva uma mulher de um agressor doméstico; e quebra um carro — símbolo do industrialismo da época — na capa, como quem diz: o poder está em novas mãos agora.

Esse herói não era apenas forte. Ele era radicalmente engajado com a ideia de justiça social. Era, em essência, um defensor dos oprimidos — e muito mais próximo de um justiceiro popular do que de um diplomata celestial.

De Alexei Luthor a Lex Luthor: ciência, guerra e poder

Superman e 
Alexei Luthor.

No meu último texto, comentei sobre como o novo filme faz uma homenagem direta à primeira aparição do vilão Lex Luthor (então chamado Alexei Luthor) em Action Comics #23 de 1940. Naquela história, o vilão, um cientista insano e manipulador, orquestra uma guerra entre duas nações fictícias: Galônia e Toran, manipulando conferências de paz e explorando tecnologias para lucrar com a destruição alheia.

Essa trama — originalmente pensada como uma crítica ao clima pré-Segunda Guerra Mundial — serve de espelho para o roteiro de Gunn. Em Superman (2025), as nações fictícias Jarhanpur e Boravia assumem o lugar de Galônia e Toran. Mas com um detalhe crucial: o subtexto foi atualizado para refletir as tensões geopolíticas do presente.

Boravia, Jarhanpur e os conflitos reais

Apesar da ficcionalização, o paralelo com a realidade salta aos olhos. Boravia é uma potência militarizada, fortemente financiada por Luthor, que utiliza sua influência para oprimir Jarhanpur, uma nação muito mais frágil, isolada e constantemente vilanizada.

Boravia tem controle de narrativas internacionais, armamento avançado e apoio de bilionários estrangeiros — enquanto Jarhanpur luta pela própria existência em um contexto assimétrico.

A analogia com o conflito entre Israel e Palestina é inegável. Ainda que não seja uma transposição exata, os elementos narrativos presentes em Superman (2025) refletem questões do mundo real:

  • Um vilão bilionário manipulando potências políticas em benefício próprio;

  • Um governo opressor se valendo da tecnologia para justificar ataques a civis;

  • Um povo oprimido, retratado muitas vezes como ameaça, mas humanizado pelo olhar do herói.

Além disso, há ecos também do embate entre Irã e Ocidente, especialmente na forma como a Jarhanpur é vista como “ameaça emergente” e alvo de ações preventivas. E no centro disso tudo, um imigrante ilegal superpoderoso frustrando planos imperialistas de genocídio, corrupção e dominação tecnológica.

Superman: o retorno do herói dos marginalizados

E é isso que torna Superman (2025) tão especial.

James Gunn entrega um filme que, mesmo envolto em luzes, monstros e piadas, não esquece do que fez do Superman um ícone eterno: a luta do bem comum contra o abuso de poder. Clark Kent aqui não é apenas um símbolo. Ele é um filho de imigrantes, tentando encontrar seu lugar, errando, aprendendo — e, acima de tudo, tentando fazer o certo.

Lex Luthor, por sua vez, pode muito bem ser lido como uma figura inspirada em bilionários reais como Elon Musk ou Jeff Bezos. Um homem que se acha maior que o mundo, que instrumentaliza tragédias para ampliar seu legado, que joga xadrez com vidas humanas — tudo isso em nome de uma ideologia narcisista.

Jarhanpur como Palestina. Boravia como Israel. Vasil Glarkos como uma caricatura de Benjamin Netanyahu. Nada disso é afirmado explicitamente — mas o subtexto está lá, e está pulsando.

Boravia e Jarhanpur são, aqui, totalmente recontextualizadas. Suas contrapartes nos quadrinhos da DC — que, sejamos francos, sempre foram locações periféricas e pouco aproveitadas — nunca tiveram qualquer relação narrativa entre si, muito menos uma fronteira compartilhada. Boravia, nas HQs, era apenas mais um país do Leste Europeu genérico, e Jarhanpur, por sua vez, tinha uma origem muito mais mística: um antigo reino monárquico administrado por Rama Khan, com breves conexões aos atlantes e ao misticismo do universo DC.

Nada disso sobreviveu ao corte final do roteiro de James Gunn. Ao invés disso, os dois países foram reconstruídos do zero, com nova geopolítica, novos conflitos e, principalmente, novas alegorias. A mudança não é acidental — é narrativa e ideologicamente estratégica. Boravia e Jarhanpur agora existem como peças-chave de um tabuleiro que ecoa diretamente o nosso mundo, e o conflito entre eles serve como pano de fundo para uma crítica contemporânea sobre autoritarismo, intervencionismo e imperialismo econômico.

É nesse contexto que surge Vasil Glarkos (Zlatko Burić), talvez um dos personagens mais politicamente contundentes do longa. Glarkos não é um líder com nuances ou complexidade psicológica refinada — ele é uma caricatura, e isso é intencional. Sua persona é construída a partir da amalgama de líderes vaidosos, bufões autoritários e demagogos de ocasião que dominaram o cenário político mundial nos últimos anos seja: Trump, Putin, Bolsonaro, Milei, Boris Johnson, Narendra Modi — todos condensados em uma máscara de arrogância, vaidade e perigo real. A graça cômica que cerca Glarkos só existe porque sabemos que essa risada carrega medo. Não rimos apesar de sua semelhança com o mundo real — rimos porque ela é assustadoramente familiar.

E, como toda figura dessas, Glarkos tem seu bilionário de estimação.

Lex Luthor, interpretado por Nicholas Hoult, entra nesse tabuleiro como o Musk da equação. Se Glarkos representa o poder bruto da política populista, Luthor representa o capital infiltrado, manipulado e desprovido de escrúpulos ideológicos. Eles não são amigos, e talvez nem aliados verdadeiros — são úteis um ao outro. Luthor financia os planos de expansão militar de Boravia e, em troca, exige metade de Jarhanpur quando o território for tomado. Não por patriotismo, não por ideologia, mas pelo lucro e pelo poder de manipular nações como se fossem peças num tabuleiro de xadrez global.

Gunn, de forma sutil mas cirúrgica, constrói essa relação como um espelho da realidade atual. Luthor tem tentáculos no governo americano, influencia decisões políticas, e se coloca como alguém que age "por cima" dos sistemas. Seu desejo de “proteger o mundo” é apenas uma desculpa para consolidar seu papel como senhor feudal do século XXI. Ele não quer salvar ninguém. Ele quer ser o único capaz de dizer quem vive e quem morre — inclusive o Superman.

E é aqui que Superman (2025) se destaca como uma obra política consciente disfarçada de blockbuster pop.

A clareza moral é uma virtude em histórias do Azulão. Em seu melhor, o Superman não está imerso em dilemas morais ambíguos — ele é o corretor inabalável de injustiças escancaradas. E por mais que isso soe simplista, é justamente essa simplicidade que permite aos roteiristas fazerem afirmações ideológicas corajosas, sem pedir desculpas por elas. O mundo já tem vilões suficientes. E se há algo que o Superman pode — e deve — fazer, é se posicionar.

Quando o filme coloca Clark enfrentando uma aliança entre capital privado inescrupuloso e regimes militares genocidas, não há "outro lado" a ser considerado com neutralidade cínica. Gunn entendeu isso, e teve coragem de apontar para os vilões de carne e osso que inspiraram sua trama. Em tempos de normalização do absurdo, um super-herói que grita "isso está errado" com clareza e convicção é, talvez, o maior superpoder de todos.

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